Resenha: livro "A rainha da neve", Michael Cunningham

 Olá pessoal, tudo bem? O livro da resenha de hoje é "A rainha da neve", escrito por Michael Cunningham e publicado em 2015 pela Editora Bertrand Brasil.


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 "O universo só pisca para aqueles nos quais ninguém acredita." (página 244)

 O livro é narrado em terceira pessoa e neles conhecemos os irmãos Tyler e Barrett. A história se inicia no ano de 2004 e se passa nos Estados Unidos. Tyler é irmão o mais velho (e sempre foi o mais bonito dos dois), está na casa dos 40 anos, é músico e quer compor uma canção especial para o dia de seu casamento com Beth, sua noiva que está com câncer, Tyler acha que usando drogas terá mais inspiração para sua música. Barrett é o caçula, com 30 e poucos anos, gay, acaba de ter mais um relacionamento amoroso terminado.

 "Na noite passada o céu despertou, abriu um olho e viu nem mais nem menos que Barret Meeks a caminho de casa vestindo um sobretudo estilo cossaco, de pé no solo gelado do Central Park. O céu o encarou, notou-o, fechou novamente o olho e voltou ao lugar onde, conforme Barrett pode apenas imaginar, estão os sonhos mais reveladores, incandescentes e galácticos." (página 26)

 Num dia, enquanto volta para casa onde mora com Tyler e Beth, Barrett vê uma luz no céu, não a luz de um avião ou de uma estrela cadente, mas uma luz especial. Seria um sinal? Algo sobre a doença de Beth? Ao que parece, ninguém mais viu essa luz, e a visão de Barrett passa a ser um segredo dele, um segredo difícil de guardar. 

 Mas como ele poderia contar sobre a luz para seu irmão, quando Tyler já tem que lidar com a doença da noiva e com seu vício em drogas? Seria certo correr o risco de o irmão achar que Barrett pudesse estar com problemas mentais e ter mais uma preocupação? Mas como esconder algo tão fantástico de seu melhor amigo e confidente durante toda a vida?

 "- Você fala igual à mamãe.
 Barrett diz:
 - Eu sou igual à mamãe. E quer saber? Na verdade não vai fazer diferença se a canção não for boa. Não para Beth.
 - Vai fazer diferença para mim.
 A solidariedade de Barrett transparece em seus olhos, que escurecem ao fitar Tyler, do jeito como acontece com o pai de ambos. Embora o pai não seja um pai especialmente talentoso, esse é um de seus talentos. Ele tem a habilidade, quando necessário, de encenar essa pequena mudança no olhar, aprofundá-lo e dilatá-lo, como se dissesse aos filhos: Vocês não precisam ser mais do que são neste exato momento." (página 41)

 Talvez Liz, patroa de Barrett e sócia de Beth pudesse ser uma opção para compartilhar o segredo, mas Liz tem um jeito diferente de ser. Se relaciona com caras mais jovens e parece durona, mas será que ela é mesmo tão durona assim?

 Eu quis ler A rainha da neve porque achei a capa linda quando vi o livro entre os lançamentos da editora. O fato de o autor ter vencido o Prêmio Pulitzer também contribuiu, assim como o título que chamou minha atenção, e eu tenho que dizer que valeu muito a pena ter lido A rainha da neve!

 Em termos de trama, de história, o livro é simples: fala sobre câncer, drogas, política, amizades, sem se aprofundar demais em nenhum assunto, mas o encantamento do livro, para mim, está na capacidade do autor de fazer com que nos identifiquemos com os personagens. Enquanto eu lia, ficava fascinada ao constatar o quanto eu, com 24 anos, moradora de uma cidadezinha minúscula do Brasil, universitária, podia ter sentimentos, anseios e pensamentos tão parecidos com os de Tyler e Barrett, norte-americanos, mais velhos... Nossas diferenças são muitas, mas a vontade de cuidar dos irmãos e de quem amamos é muito parecida. Assim como aquelas ideias que me acompanham e que, creio, ocorram também a todos os seres humanos: "será que eu vou fazer parte de alguma coisa especial?", "será que eu vou deixar alguma marca importante na Terra", "será que eu fui escolhido(a) para algo único e determinado acontecimento é um sinal?".

 Barrett passa boa parte do livro tentando entender qual o significado da luz que ele viu, Tyler faz dos cuidados com Beth a sua missão na vida, além de sua fixação sobre quem vai ser o próximo presidente dos Estados Unidos. Tyler cuida de Beth, de Barrett (como sua falecida mãe pediu), sabe que o irmão caçula é especial, mas não cuida de si próprio e continua usando drogas. Barrett procura um sentido para sua vida, se não um sentido, ao menos os motivos que fazem seus relacionamentos amorosos não durarem e um pouco mais de autoconhecimento.

 "É isso. Na verdade é isso. Tyler quer que todos que ele conhece se mostrem igualmente indignados e virulentos. Está cansado de se sentir tão só." (página 150)

 "Não é que Barrett não tenha perguntas. Quem não tem? Mas nada que demande respostas de um profeta ou oráculo. Mesmo se tivesse a chance, será que haveria de querer que um discípulo corresse calçando apenas meias por um corredor sombrio e interrompesse o vidente com a finalidade de perguntar por que todos os namorados de Barrett Meeks acabam se revelando nerds sádicos? Ou que tipo de ocupação finalmente há de manter Barrett interessado por mais de seis meses?" (páginas 26 e 27)

 Eu poderia ficar horas e horas falando sobre A rainha da neve e ainda teria muitas coisas para dizer, mas não quero estragar as emoções para os futuros leitores. Como já mencionei, os acontecimentos são aparentemente simples (excetuando-se a luz), e Michael Cunningham escreve de uma forma quase poética (fatores que talvez não agradem a todos os leitores), mas a história é daquele tipo que vai nos tocando aos pouquinhos e, no final, já não somos mais os mesmos.

 Gostei da forma como Beth, Tayler e Barrett se relacionavam com o apartamento super velho em que moravam, gostei da forma como a família que os três formavam foi retratada, uma família tão cheia de amor! E gostei de Barrett, de sua curiosidade (tão parecida com a minha) para descobrir se havia recebido um sinal ou não. E gostei também de seu "projeto Síntese de Absurdos", onde ele cataloga algumas reflexões culturais. Destaco a sobre Madame Bovary (livro que li e resenhei, mas não curti muito).

 "Acaso Flaubert não executou Emma pelo seu crime? Sim, mas, por outro lado, não. Flaubert não era um moralista... ou melhor, não teria apontado seu dedinho rechonchudo para Emma pelo crime de adultério. Era um moralista no sentido mais amplo. Estava, no máximo, escrevendo sobre um mundo burguês francês tão sufocante, tão apaixonado pela mediocridade respeitável... Emma vinha recebendo spams, certo? Não foi o adultério que a desgraçou, mas, sim, sua tendência a acreditar em tolices. Esse é o prazer de Barrett, sua busca incessante. O projeto Síntese de Absurdos. É um livro de recortes mental; uma árvore genealógica imaginária, não de ancestrais, mas de acontecimentos e circunstâncias e estados de desejo. Optou por partir de Madame Bovary simplesmente por ser seu romance favorito. Porque é preciso partir de algum lugar." (página 90)

 Abaixo, mais um trecho que gostei, sobre o pai dos rapazes:

 "Mas como o pai deles pôde deixar de ser o solícito penitente da mãe? O acordo sempre foi tão claro! Ela era o tesouro permanentemente em perigo (um raio a encontrou), estava estampado em seu rosto (a delicadeza branco-azulada de suas feições eslavas, que mais pareciam esculpidas à mão, o brilho de porcelana). O pai era o motorista autonomeado, o cara que monitorava seus cochilos, que ficava em pânico quando a mulher se atrasava meia hora; o garoto de meia idade que se sentava sob a janela da esposa na chuva até pegar pneumonia e morrer." (página 41)

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 Continuo achando a capa linda, embora imaginasse que ela seria menos esverdeada antes de ter o livro em mãos. A diagramação está boa, com margens, letras e espaçamento de bom tamanho, as páginas são amareladas e o livro está bem revisado.

 Encerro a resenha indicando o livro para todos os que gostam de histórias com uma narrativa mais poética ou de histórias sobre família e amigos. Ler A rainha da neve foi diferente do que eu imaginava, mais foi bom. Abaixo, um trecho (meu preferido) que pode sintetizar bem a mensagem do livro, além de ser uma grande verdade:

 "As pessoas são mais do que supomos que sejam. E são menos, também. O truque reside em lidar com ambos os aspectos." (página 139)

 Detalhes: 252 páginas, ISBN-13: 9788528620313, Skoob. Onde comprar online: Saraiva.

 Por hoje é só, espero que vocês tenham gostado do post. Alguém aí já leu A rainha da neve ou algum outro livro do autor?

 * A rainha da neve foi minha escolha para o  Desafio Literário Skoob de dezembro, o tema do mês era "Ganhadores de prêmios (livros/autores vencedores do Jabuti, Nobel, Pulitzer, etc)".


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13 comentários

  1. Eu fiquei meio assim em outro dia de ler este livro ou não, principalmente por causa do tema que aborda, mas a capa dele é tão linda <333333 hahaha
    Adorei a tua resenha, gostei de ver sua opinião.
    Beijos
    segredosliterarios-oficial.blogspot.com

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  2. Sou louca por este livro!
    Lendo a resenha me deixou ainda com mais vontade. Ele é lindo!
    E concordo quando você diz que Michael Cunningham escreve de uma forma quase poética. Já li "Laços de Sangue" e "Uma casa No Fimdo Mundo", que eu amei!

    Beijinhosss...
    http://estantedalullys.blogspot.com/

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  3. bem, confesso que apesar da aparente simplicidade, achei a leitura bem instigante... já coloquei na lista pra 2016, acho que será um livro de sair da minha zona de conforto... a capa dele é lindíssima... quem sabe eu me identifique com algum personagem tbm???

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  4. Oi, tudo bem? Não conhecia a obra, mas a capa é muito linda mesmo.
    Gosto quando consigo me identificar com os personagens e de uma narrativa poética, então dica mais que anotada. Sua resenha foi a prmiera que li desse livro e só posso ficar animada para ler.

    Beijos
    Leitora Sempre

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  5. Ainda não conhecia esse livro, mas após ler sua resenha acho que seria totalmente o tipo de livro que eu gosto de ler... quem sabe em 2016 né rsrs, minha wishlist tá grande!!!
    Beijos

    http://myself-here1.blogspot.com.br/

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  6. Oi. sua resenha ficou muito sensível, delicada, na medida certa para analisar a obra, confesso que leria por suas palavras tão bem escolhidas. Principalmente aparte do cuidado com os irmãos.

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  7. Oi! Não conhecia essa obra. A capa é maravilhosa. Bom, não sei se leria o livro, não to muito nessa vibe... no momento estou lendo muita fantasia rs
    Mas quem sabe no futuro. Adorei sua resenha.
    Beijos

    Academia Literária DF

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  8. Oi confesso que fiquei um pouco confusa com o que senti em relação a resenha. Me sinto um pouco curiosa em relação a leitura ao mesmo tempo que percebi alguns pontos que poderiam me fazer não curti-la. Sendo assim acredito que vou pesquisar um pouco mais sobre o livro antes de tomar uma posição em relação se o leria ou não.
    beijos

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  9. Olá Maria! Foi muito bom ter lido sua resenha, pois estava desejando esse livro pela capa mesmo, ela é tão linda! Fico contente de descobrir que por dentro a uma história parece ser tão bonita quanto a capa :)

    umreinomuitodistante.blogspot.com.br

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  10. Oiiiie
    A capa realmente está muito linda, que bom que a históia te agradou, parece ser muito boa e sua resenha está ótima

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  11. Olá, gostei da premissa do livro. Achei interessante que ele ao mesmo tempo é reflexivo, mas mesmo assim não complica as coisas, é uma característica difícil de achar nesse tipo de história
    Angel Sakura
    www.euinsisto.com.br

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  12. Eu fiquei muito interessada no enredo desse livro, mas como não é muito o que eu gosto de ler, deixei a leitura passar. Mas ainda não descarto a oportunidade de ler esse livro em breve.

    http://laoliphant.com.br/

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  13. Ai, sinceramente o enredo não me conquistou :( Não sei se leria o livro, mas gostei muito da forma como escreveu a sua resenha, parabéns! Beijos.

    http://eicarolleia.blogspot.com.br/

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